Como vender uma pequena empresa ou MEI
Dá para vender um MEI? Na prática, não se transfere o CNPJ — e é aí que a maioria erra. Veja o que você realmente negocia num negócio pequeno, quanto vale e quando o caminho certo é passar o ponto.

O Brasil tem 13,1 milhões de MEIs ativos — e 2025 bateu recorde, com 3,8 milhões de novas aberturas, alta de 22% sobre o ano anterior. Com tanta gente empreendendo pequeno, é natural que muitos cheguem, mais cedo ou mais tarde, à mesma pergunta: "quero sair do negócio — dá para vender o meu MEI?". A resposta pega quase todo mundo de surpresa, e entendê-la é o que separa uma saída limpa de uma boa dor de cabeça.
Dá para vender um MEI? A resposta que quase ninguém sabe
Não. Um MEI não pode ser vendido nem transferido. O CNPJ do microempreendedor individual é vinculado ao CPF do titular e, por lei, é intransferível — é o que dizem o Portal do Empreendedor (gov.br) e o SEBRAE. Não existe "passar o MEI para o nome de outra pessoa".
Isso não quer dizer que você está preso ao negócio. Quer dizer apenas que a saída acontece por outro caminho. Há duas rotas:
- Encerrar o seu MEI e o comprador abrir o dele. Você dá baixa no CNPJ (resolvendo as pendências fiscais antes) e quem entra abre um MEI novo para tocar a operação.
- Transformar o MEI em uma empresa (por exemplo, uma LTDA) e então vender. Como MEI, não dá; como LTDA, o CNPJ pode mudar de titular por meio de um contrato de compra e venda.
Ou seja: no micronegócio, o que troca de dono quase nunca é a "empresa" no papel. É outra coisa.
Então o que você realmente vende?
Se o CNPJ não vai junto, o que o comprador está pagando? Tudo aquilo que dá para transferir e que faz o negócio valer a pena:
- O ponto — o contrato de locação daquele local, muitas vezes o ativo mais valioso.
- Os equipamentos, o estoque e as benfeitorias — do balcão à cadeira de salão, da geladeira à instalação elétrica que você montou.
- A clientela e a marca — o nome nas redes, a base de clientes fiéis, os fornecedores já negociados.
Na prática, você negocia esses ativos por meio de um contrato (de cessão do ponto e de venda dos bens), e o comprador segue com o próprio CNPJ. Deixar isso claro desde o anúncio evita o mal-entendido mais comum: o interessado achar que "compra o MEI" e descobrir só na hora que não é assim.
Quanto vale um negócio pequeno? (pode esquecer o EBITDA)
Aqui o micronegócio se separa de vez de uma empresa maior. Ao vender uma empresa estruturada, o preço sai de múltiplos de EBITDA e projeções de fluxo de caixa, com demonstrações de três a cinco anos na mesa. Um MEI ou uma micro raramente têm essa contabilidade — e forçar esse método não faz sentido.
No pequeno, o valor costuma ser a soma de partes concretas:
- O tangível: equipamentos, estoque e benfeitorias, avaliados pelo que valem hoje (não pelo que custaram novos).
- O intangível: o ponto e a clientela — o quanto aquele local e aquele movimento já construído valem para quem vai continuar.
- Um prêmio pelo que o negócio gera: havendo lucro consistente, é comum somar um múltiplo simples do lucro mensal (algo entre 6 e 12 meses, conforme a estabilidade).
Um exemplo: um salão de bairro com cadeiras, lavatórios e agenda cheia pode valer bem mais do que a soma dos móveis — porque o ponto e a clientela têm valor próprio. É esse conjunto que se precifica, não a papelada.
Vender o negócio ou passar o ponto? No pequeno, a linha é tênue
Quanto menor o negócio, mais a venda se confunde com passar o ponto. A régua é simples: se o valor está principalmente no local (um ponto disputado, com contrato bom), o caminho natural costuma ser passar o ponto comercial — e quem entra pode até abrir um negócio diferente ali. Se o valor está na operação (clientela recorrente, marca, faturamento previsível), a lógica se aproxima da de vender o negócio.
Muitas vezes é uma mistura dos dois. Se a diferença ainda confunde, vale a leitura de vender empresa ou passar o ponto antes de decidir como anunciar.
Como vender bem um negócio pequeno
O básico, feito com cuidado, resolve:
- Organize o que der. Mesmo sem contabilidade formal, mostre movimento: faturamento, comprovantes, fluxo de clientes. Credibilidade, no pequeno, vira preço.
- Deixe claro o que está incluído. Ponto, equipamentos, estoque, contas de redes sociais, contratos com fornecedores — liste tudo. Ambiguidade trava a negociação.
- Formalize. Um contrato de cessão do ponto (com anuência do locador) e de venda dos bens protege os dois lados.
- Anuncie onde há comprador. Um público que já procura negócios à venda fecha mais rápido do que o boca a boca do bairro. No Passando o Ponto, você anuncia seu negócio para quem está justamente atrás disso.
Vender pequeno não é desistir de nada — é transformar em dinheiro o ponto, a estrutura e a clientela que você levou tempo para construir. Só exige entender, desde o começo, o que de fato está sendo vendido.



